Sermorelina
Sermorelina é um análogo sintético do GHRH (GRF 1-29) que estimula a liberação natural de hormônio do crescimento.
Sermorelina (GRF 1-29 ou GHRH 1-29) é um peptídeo sintético de 29 aminoácidos idêntico ao fragmento N-terminal biologicamente ativo do GHRH humano de 44 aminoácidos. Foi o primeiro análogo do GHRH aprovado pela FDA, comercializado como Geref para diagnóstico e tratamento da deficiência de GH em crianças.
Massa molecular ~3.358 Da. NDA 19-863 aprovada em dez/1990 (uso diagnóstico) e NDA 20-443 (Geref 0,5 e 1,0 mg) em set/1997. A EMD Serono descontinuou voluntariamente em 2008 por razões comerciais (não de segurança); a FDA formalizou a retirada em jun/2009 e confirmou em 2013 (Federal Register) que não foi por segurança ou eficácia — o que permite manipulação sob 503A/503B.
Diferente da CJC-1295 (com substituições e, na forma DAC, ligante de albumina que estende meia-vida a dias) e da tesamorelina (44 aa modificada, aprovada para lipodistrofia associada ao HIV), a sermorelina tem meia-vida plasmática de apenas 11–12 minutos, produzindo pulsos breves e fisiológicos de GH.
Mecanismo de ação
Ativa o receptor de GHRH (GHRHR), um GPCR nos somatotrofos da hipófise anterior, disparando a via Gs/adenilato ciclase/cAMP e cascatas MAPK — estimulando síntese e secreção de GH.
A resposta é modulada pela somatostatina: alta durante o dia e pós-refeições (atenua o efeito) e mínima no início do sono profundo (amplifica a liberação). Por isso o padrão de dose ao deitar sincroniza com a janela endógena de máxima secreção.
O GH liberado atua no fígado induzindo IGF-1, mediador dos efeitos anabólicos (síntese proteica muscular, condrócitos, osteoblastos, lipólise). Estudos em idosos mostram elevação de IGF-1 detectável em 2–4 semanas.
Preservação do eixo: diferente do GH exógeno (carga supra-fisiológica constante que causa atrofia de somatotrofos e supressão prolongada pós-descontinuação), a sermorelina age a montante — a liberação de GH permanece pulsátil e sujeita ao feedback da somatostatina, com retorno ao basal sem supressão prolongada ao suspender.
Sono: sinalização GHRH promove sono de ondas lentas (SWS), que por sua vez cria o ambiente hormonal (baixa somatostatina) do maior pulso de GH das 24h — responsável por 60–70% da secreção diária em homens.
Protocolos de dosagem
Anti-aging/wellness padrão: 200–300 mcg SC ao deitar, 5–7 noites/semana.
Início conservador: 100–200 mcg ao deitar por 2–4 semanas, titulando conforme tolerância e resposta.
Faixa clínica superior: 300–500 mcg ao deitar — reservada a IGF-1 documentado baixo ou resposta inicial pobre.
Pediátrico (histórico Geref/FDA): 30 mcg/kg SC ao deitar.
Ciclagem: não estritamente necessária pela preservação do eixo, mas reavaliação a cada 3–6 meses com IGF-1 é recomendada. Esquema 5-on/2-off é comum. Tolerância no receptor GHRH é rara, ao contrário do que ocorre no receptor ghrelina.
Administração
Via subcutânea (abdome, coxa anterior, tríceps posterior), agulha de insulina 29–31G, ângulo 45–90°, rotação de sítios.
Aplicar 15–30 min antes de dormir para alinhar com a queda fisiológica de somatostatina — dose diurna reduz substancialmente a resposta de GH.
Estômago vazio (≥90 min após a última refeição): glicose e insulina elevadas atenuam a resposta de GH.
Reconstituição e armazenamento
Fornecida em pó liofilizado (2, 3 ou 5 mg). Reconstituir com água bacteriostática (álcool benzílico 0,9%) para uso multi-dose.
Proporção comum: 3 mg + 3 mL = 1 mg/mL (1.000 mcg/mL). Dose de 300 mcg = 0,3 mL (30 UI em seringa de insulina).
Injetar a água escorrendo pela parede do frasco, nunca sobre o pó. Girar suavemente até dissolver — nunca agitar.
Pó não reconstituído: temperatura ambiente aceitável; refrigeração a 2–8 °C recomendada para >12 meses.
Reconstituída: refrigerar 2–8 °C e usar em 4–6 semanas. Nunca congelar. Descartar se >72 h em temperatura ambiente ou se turva/com partículas.
Timeline de resultados
Semanas 1–4: melhora do sono (mais profundo, sonhos vívidos), leve aumento de energia e humor.
Semanas 4–8: elevação mensurável de IGF-1 (detectável em 4–6 semanas), melhor recuperação e menos dor muscular, hidratação/elasticidade cutânea inicial.
Meses 2–6: ganhos progressivos em massa magra (estudo demonstrou +1,26 kg em homens), redução de gordura corporal (especialmente visceral), melhora de força, pele/cabelo/unhas. Estudo de 6 meses em idosos mostrou +35% em IGF-1.
Benefícios máximos tipicamente aos 3–6 meses de uso consistente, com reavaliação clínica e de IGF-1 a cada 3 meses.
Evidências científicas
GHD pediátrica (pivotal Geref): velocidade de crescimento aumentada em 74% das crianças com GHD idiopática em 6 meses, sustentada por 12 meses e dados limitados até 36 meses.
Vittone et al. (1997, Metabolism): 11 homens 64–76 anos, 2 mg SC noturno por 6 semanas — quase duplicou o output noturno de GH (IGF-1 não subiu significativamente no curto prazo).
Ensaio randomizado 16 semanas em adultos 55–71 anos: aumentos significativos de GH noturno e IGF-1 sérico em ambos os sexos; homens com +1,26 kg de massa magra e melhora da sensibilidade à insulina; ambos com aumento da espessura cutânea.
Estudo de 6 meses combinando sermorelina noturna + condicionamento físico: IGF-1 +~35% e mudanças favoráveis na composição corporal (massa magra ↑, gordura visceral ↓).
Teste diagnóstico: IV 1 mcg/kg — teste rápido e relativamente específico para GHD, com menos falsos-positivos que teste de tolerância à insulina.
Limitações: a maior base controlada é pediátrica; estudos em adultos são pequenos (<20), curtos (4–6 meses) e centrados em marcadores substitutos. Faltam RCTs longos com formulações manipuladas atuais.
Stacks
Sermorelina + Ipamorelina (mais prescrito): GHRH + agonista ghrelina/GHS-R1a — sinergia por vias receptoriais distintas convergindo no somatotrofo. Ipamorelina não eleva cortisol/prolactina/apetite significativamente. Protocolo típico: 200–300 mcg + 200–300 mcg SC ao deitar, juntos.
Sermorelina + GHRP-6: co-administração GHRH + GHRP demonstrou aumento sinérgico de até 54× na secreção pulsátil de GH vs basal (dado com GHRP-2). GHRP-6 é eficaz mas menos seletivo — eleva cortisol, prolactina e estimula apetite.
Sermorelina + CJC-1295: ambos GHRH análogos no mesmo receptor — não gera sinergia como com GHRP. Uso combinado é menos evidenciado.
Efeitos colaterais e segurança
Comuns (leves e autolimitados): reações no sítio de injeção (dor, vermelhidão, prurido) — mais frequentes; rubor facial (5–20 min pós-injeção); cefaleia leve nas 1–2 primeiras semanas; tontura inicial.
Menos comuns: náusea, sonolência ou inquietação, urticária transitória, retenção hídrica leve, disgeusia, dificuldade de deglutição (rara).
Raros mas relevantes: hipersensibilidade/anafilaxia (requer atendimento imediato); formação de anticorpos anti-sermorelina — descrita em fração alta de pediátricos em ensaios, geralmente transitória e sem impacto significativo no crescimento.
Precauções/contraindicações: malignidade ativa (GH/IGF-1 podem promover tumores); hipotireoidismo deve ser corrigido antes (baixa tireoide reduz resposta de GH); glicocorticoides atenuam o efeito; obesos tendem a respostas embotadas.
Status legal (EUA/Brasil) e esporte
EUA: NDA formalmente retirada em 2009; determinação FDA de 2013 no Federal Register confirma que não foi por segurança/eficácia — habilita manipulação sob 503A (farmácias magistrais) e 503B (outsourcing facilities) com API farmacêutica e Certificado de Análise. Não é substância controlada (DEA), mas é medicamento sob prescrição — venda OTC, como suplemento ou para uso humano sem prescrição é ilegal.
WADA: proibida sob S2.2 (Hormônios Peptídicos, Fatores de Crescimento e Miméticos), especificamente S2.2.4 (análogos de GHRH — junto com CJC-1295 e tesamorelina). Proibição vale dentro e fora de competição. TUE teoricamente disponível, mas extremamente difícil de obter para substâncias S2.
Este conteúdo é educacional e não substitui aconselhamento médico. No Brasil, o uso de peptídeos é regulado pela ANVISA e depende de prescrição.
